Um amor pra recordar
Isabella Proença
sexta-feira, dezembro 18, 2015
30
Oi pessoal, tudo bem com vocês? Espero que sim!
O réveillon está cada vez mais próximo, faltam menos de quatorze dias para 2016 e, não sei porquê, sempre fico aflita e nostálgica nesse período.
É uma mistura de emoções opostas. Frustração e felicidade, ansiedade e calmaria, desentusiasmo e animação, saudade e... Saudade.
Meus bisavós faleceram em 2012 e minha bisavó, Natalice, fazia aniversário dia 25 de dezembro. Queria guardar a história deles pro dia primeiro de janeiro, porém hoje eles estão tão vivos na minha mente que não consigo escrever ou pensar em nada que não os envolva.
Eles eram um casal bem tradicional. Meu bisavô, Armindo, sempre trabalhou para sustentar a família e minha bisavó cuidava da casa e costurava. Eles eram evangélicos e quando meu vovô não estava de bermuda marrom e camisa branca, vestia roupa social e colocava a bíblia debaixo do braço.
Não sei exatamente por quantos anos foram casados, mas ultrapassou os sessenta. Tiveram seis filhos, dez netos e nove bisnetos.
Eles me contavam que saíram da roça ainda muito jovens para construir uma família, porém nunca esqueciam de mencionar o nome de sequer um parente dos muitos que tinham. Enquanto eu ouvia a história conseguia perceber a gratidão e o orgulho no olhar deles... Era incrível.
Poderia ficar aqui por horas falando sobre cada detalhe e ainda assim não haveria como expressar tudo o que eles foram e são na vida de cada uma das pessoas que tiveram a sorte de tê-los por perto, por isso hoje quero compartilhar com vocês uma situação específica e - de certa forma - recente que me tocou profundamente na época e continua tocando hoje.
ANO NOVO DE 2011, CONTAGEM REGRESSIVA PARA MEIA-NOITE.
A família toda se reuniu na casa dos meus bisavós e fizemos uma ceia simples. A maioria estava na varanda enquanto eu, meu pai e meu biso ficamos sentados no sofá da sala, assistindo a contagem regressiva na Globo.
10, 9, 8, 7, 6...
Eu tinha 15 anos e não estava nada feliz por motivos fúteis. Hoje, com quase 20, me dou conta que aquele foi um dos melhores momentos da minha vida e - sem dúvidas - a melhor virada.
5, 4, 3, 2, 1! Feliz 2012!
O primeiro abraço do ano foi no meu vôzinho. Levantei, o abracei, fui falar com meu pai e depois a avalanche de parentes começou a estender os braços.
Oramos - como de costume - na varanda e no final da oração a futilidade me ligou. Fui para o corredor atender e no final da ligação me deparei com uma cena inesquecível que me emociona até hoje.
Meu bisavô - que não participou da tradicional oração - estava no quarto com a minha bisavó. Ele deitou do lado dela e ficou fazendo cafuné enquanto a olhava com atenção e amor. Desabei.
Minha bisavó tinha alzheimer e àquela altura a maldita doença já a havia feito esquecer de tudo.
"A doença de Alzheimer é uma doença do cérebro (morte das células cerebrais e consequente atrofia do cérebro), progressiva, irreversível e com causas e tratamento ainda desconhecidos. Começa por atingir a memória e, progressivamente, as outras funções mentais, acabando por determinar a completa ausência de autonomia dos doentes. Os doentes de Alzheimer tornam-se incapazes de realizar a mais pequena tarefa, deixam de reconhecer os rostos familiares, ficam incontinentes e acabam, quase sempre, acamados. É uma doença muito relacionada com a idade, afetando as pessoas com mais de cinquenta anos. A estimativa de vida para os pacientes situa-se entre dois e quinze anos."
Nós, como netos e bisnestos, sofríamos muito. Ela não nos reconhecia mais, achava que queríamos machucá-la e em alguns momentos era agressiva... Completamente o contrário do que costumava ser.
Precisávamos insistir muito para que ela tomasse um remédio, pois achava que era veneno. Implorávamos para que ela se alimentasse, mas nem todos os dias conseguíamos porque ela pensava que a comida estava envenenada. Algumas vezes tivemos que forçá-la, literalmente, a tomar banho por causa do odor. Assistimos a mulher forte e guerreira que sempre cuidou de nós perder a identidade e a dignidade.
Se já era difícil pra nós, era pior pra ele. Como um marido que dorme e acorda com a esposa há mais de sessenta anos lida com essa situação? Ela esqueceu dele também.
"Eu? Casada com você?! Maluquice!"
No começo eles ainda dormiam juntos, porém depois passou a ser impossível. A memória dela foi apagada gradativamente e, infelizmente, com sucesso.
"Bellinha, por que você tá chorando?"
"Meu avô tá lá no quarto com a minha avó..."
Mas nos primeiros minutos do ano de 2012 ele fez questão de estar com ela, a companheira dele. E eu li (sim, li) aquela cena como: "e daí que ela não lembra de mim? Eu a amo e estarei por perto até seu último suspiro, pois o que importa é ela estar aqui... E nenhuma doença mudará isso."
E foi exatamente isso que aconteceu.
É claro que a doença dela o entristecia, mas ela continuava ali. Mesmo que apenas com pequenos lapsos de memória ou às vezes somente fisicamente, estava ali!
Dia 20 de fevereiro de 2012 deixou de estar.
Aos 93 anos Dona Natalice teve uma parada cardíaca e faleceu. A partir daquele dia o olhar do senhor Armindo mudou, ele era um homem incompleto e jamais seria o mesmo novamente.
Conhecemos meu avô frágil como ele nunca nos permitiu ver... Porém mesmo na dor foi um exemplo de força. Teve dois AVC's e resistiu bravamente! Continuou andando, falando (mesmo com dificuldade) e com muita vontade de viver.
Porém a saúde começou a complicar ainda mais e ele precisou fazer uma cirurgia.
Não esqueço da última vez que o vi. Ele estava no CTI do hospital, estendeu os braços chorando e disse: "minha netinha!"
Acho que nunca vou conseguir lembrar disso sem chorar.
No dia 18 de outubro meu anjo faleceu, aos 83 anos, na mesa de cirurgia. A médica nos deu a notícia em prantos dizendo que tentou o ressuscitar por mais de vinte minutos. Mas ele já tinha encontrado a minha vózinha, com memória, no céu.
Foi, de longe, a pior perda da minha vida. A que me arranca lágrimas dos olhos e dá um nó na minha garganta até hoje.
Alguns meses depois li o livro "Jesus, o maior psicólogo que já existiu" e uma frase escrita nele fez com que eu entendesse e aceitasse:
"Parceiros amorosos de uma vida inteira morrem com poucos meses de diferença."
Oito meses. Duas perdas irreparáveis. Uma lição pra levar pra vida toda. Um exemplo a ser seguido.
Depois deles nossa família nunca mais foi a mesma... E nem será.
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| <3 |
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| <3 |
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| Minha rainha! |
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| Minha bisavó já tinha falecido... Comparem esse olhar com o olhar das fotos anteriores em que ele está ao lado dela. |
Me perdoem por não conseguir editar as fotos, muito mal consegui finalizar o post. Espero, de coração, que vocês possam tirar algum proveito desse relato que - apesar de parecer grande - não faz jus nem a metade do que meus avós representam pra nós.
QUE EM 2016 VOCÊ POSSA VALORIZAR MAIS QUEM VOCÊ AMA E OS MOMENTOS QUE SÃO REALMENTE IMPORTANTES, POIS HÁ VÁRIAS COISAS ALÉM DA MORTE QUE ESTÃO AÍ PARA NOS MOSTRAR QUE NADA É ETERNO NESSA TERRA.
Até a próxima.
Último natal e último ano novo com eles.




