A maior dor da minha vida
Isabella Proença
sábado, outubro 01, 2016
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No dia 18 de setembro de 2016 perdi o meu segundo filho. Segundo porque - pra quem não sabe - no dia 19 de março de 2016 perdi o primeiro. O segundo tinha 6 semanas e 6 dias e media 8mm. O primeiro tinha 8 semanas e 3 dias e media 16mm. Não ouvi os batimentos cardíacos do segundo, mas ouvi do primeiro... Foi o som mais lindo que já escutei na vida.
Nenhum dos dois foi planejado e o primeiro foi o que mais me assustou. Havia arrumado um emprego e ganhado uma bolsa na faculdade há pouquíssimo tempo e só conseguia pensar que perderia tudo. Estupidez minha... Não me dei conta que esse "tudo" estava crescendo dentro de mim.
Não deu tempo de confirmar o segundo, mas só a possibilidade de estar grávida novamente me encheu de alegria. O cenário não havia mudado muito, mas eu estava bem mais centrada e fiz vários planos. A minha única preocupação eram as pessoas ao meu redor, então me precipitei (um pouco demais) e comecei a arranjar soluções. Preparei tudo pra chegada dele, mas esqueci de prepará-lo.
Mesmo após ver e ouvir o primeiro, não criei um vínculo imediato. Estava tão atordoada, triste e estressada que não o aceitava, não enxergava a bênção que havia recebido de Deus. Comecei a questionar se meu sonho de ser mãe era verdadeiro... Se realmente nasci pra isso como sempre acreditei. Foi um período horrível de conflitos internos e externos e sintomas enloquecedores.
Com o segundo bastou um atraso menstrual. Eu já o amava, o imaginava e o queria. Foi uma conexão instantânea... Não o sentia fisicamente, mas me sentia mãe. Os sintomas eram mais sutis e eu não via a hora de tê-lo nos braços.
Em nenhuma dessas duas vezes tive a oportunidade de contar ao meu pai que ele seria avô, ao meu irmão que ele seria tio... A minha família só ficou sabendo durante/após as perdas e isso me machucou muito.
Na primeira vez liguei pro meu pai - em prantos - várias vezes, mas o nó na minha garganta me impedia de falar uma palavra sequer sobre esse assunto. Na segunda vez "amaciei o território" ao máximo e disse que estava com suspeitas, mas omiti que dentro de mim essa suspeita já havia sido confirmada.
Os processos abortivos foram traumáticos e torturantes, porém distintos.
Senti tanta dor no primeiro que pensei que fosse morrer e - como não sabia o que estava acontecendo - fiquei apavorada. No segundo começou com um sangramento aparentemente inofensivo, mas que me deixou em pânico instantaneamente.
Fui ao hospital nas duas vezes: no Rio na primeira e na Baixada na segunda. Ambos não ajudaram em nada, mas como havia me informado sobre o assunto após a primeira perda, não permiti que me forçassem a passar pela curetagem em setembro como me forçaram em março, pois prometi a mim mesma que jamais me submeteria àquilo novamente.
O tempo continuou passando, a vida continuou seguindo e eu continuei... Destruída. Azar o meu.
Confesso que ter evitado a segunda curetagem me trouxe uma certa paz de espírito, mas depois de passar duas vezes por essa situação percebo que não há cura. Ainda que eu tenha mais filhos no futuro... Uma pessoa nunca substituirá a outra.
Meu primeiro filho nasceria esse mês (outubro). Meu segundo filho nasceria em abril.
E eu? Morri com eles. Sou um terço do que já fui um dia.
Hoje o desejo de ser mãe inflama meu coração, mas o medo invade o meu ser. "E se acontecer de novo?".
Estou cuidando do meu corpo, mas ainda não foi descoberta a causa... Aparentemente estou saudável e já não sei se essa é uma boa notícia.
Existe remédio para a alma?
Vejo grávidas na rua e imagino como a minha barriga teria ficado. Olho recém-nascidos e me emociono ao pensar em como seriam os meus. Passo em frente à lojas infantis e tenho vontade de comprar todas as roupinhas e sapatinhos, mas lembro que não tenho mais motivo.
E ninguém entende esse sofrimento... Muitos desmerecem e isso me cansa. É uma pressão tão grande pra "ficar bem" e uma incompreensão tão absurda que optei por viver a minha dor de forma invisível, pelos cantos, pra evitar conflitos desnecessários, mas ela (a dor) existe e habita em mim.
De qualquer forma, apesar de tudo, não me importo com o que dizem ou pensam. O meu único consolo é saber que sou mãe de dois anjinhos lindos que estão ao lado de Deus, que eu amo mais que a minha própria vida e que, ainda que passem décadas, jamais serão esquecidos. Seus irmãos saberão que eles existiram, que fazem parte da família e que têm um espaço exclusivo no meu coração.
Filhos, estar em pedaços devido a falta que vocês me fazem faz com eu me sinta abençoada por um dia tê-los tido dentro de mim. Os amo infinita e eternamente.
"É só me recompor, mas eu não sei quem sou... Me falta um pedaço teu. Preciso me achar, mas em qualquer lugar estou rodando sem direção, eu vou. Morcego sem radar voando a procurar, quem sabe, um indício teu. Queimando toda fé, seja o que Deus quiser - eu sei - que amargo é o mundo sem você..."
"É só me recompor, mas eu não sei quem sou... Me falta um pedaço teu. Preciso me achar, mas em qualquer lugar estou rodando sem direção, eu vou. Morcego sem radar voando a procurar, quem sabe, um indício teu. Queimando toda fé, seja o que Deus quiser - eu sei - que amargo é o mundo sem você..."































